Essa semana mergulhei de novo no livro A mulher e a casa, sobre Eufrásia Teixeira Leite, por diversas razões. Uma delas foi essa imagem, que recebi por e-mail, de gente que zela pela imagem de Eufrásia e não entende como ainda hoje jornalistas usam frases como “corpo feito para o pecado e livremente usado para isso”.

Isso saiu numa revista famosa, de março de 2015, eram verbetes biográficos sobre mulheres do estado do Rio, parte das comemorações dos 450 anos do Rio. Reparem que, em todos os verbetes, há algo sobre o corpo ou a vida sexual dessas mulheres. Entendo que a sessão se chamava o “sexo e a cidade”, mas me pergunto o porquê dessa escolha.
Segundo a revista, Eufrásia tinha o corpo do pecado, Luz del Fuego tinha pernas roliças, e Norma Bengell é descrita como problemática com os homens.

Tão poucas linhas sobre essas que poderíamos ficar páginas e páginas falando. No entanto, foi preciso gastar espaço com o “corpo do pecado livremente usado para isso”. Mas isso não é culpa só da revista muitos quando citam Eufrásia fixam-se em questões sexuais e chegam a dizer que ela foi uma cortesã famosa.

Como alguém que pesquisou bastante a vida dela para escrever um livro, gostaria de dizer algumas coisas:

1) Eufrásia foi uma herdeira. – Critiquem, se quiserem, essa instituição perpetuadora da concentração de renda: a herança. Mas não inventem histórias. Critiquem esse dinheiro vindo, em grande parte, do trabalho escravo. Mas não inventem histórias.

2) Eufrásia não foi uma cortesã, como alguns afirmam. Ou seja, não foi uma prostituta de luxo. Não foi amante fixa de nenhum figurão endinheirado. – Isso não a diminuiria em nada, mas simplesmente não é a história dela.

3) Por que as pessoas não conseguem entender de onde vinha o dinheiro de Eufrásia? É como se pensassem: como uma mulher pode fazer dinheiro se não pelo sexo? Como uma mulher pode ganhar dinheiro, se não pelo uso do corpo?

4) O que é ter o corpo do pecado? É ter seios grandes, como ela tinha? É isso?

5) Ao que tudo indica, pelas cartas dela, Eufrásia não foi sexualmente livre. Foi muito casta e discreta, como afirmou a Joaquim Nabuco: “não tive, nunca quis, nunca pensei ter outro”. Estava dizendo-lhe que não tinha amantes, que amava apenas ele.

6) Joaquim Nabuco teve inúmeros casos e eu morro de pena de Eufrásia ter sido tão casta e fiel a ele, segundo palavras dela mesma.

É preciso que se grife que o dinheiro de Eufrásia veio de herança – e não do sexo – e, acima de tudo, ele foi um montante pequeno se compararmos ao que ela conseguiu ao final da vida. Ou seja, ela própria, por mérito próprio – intelectual e não sexual – multiplicou a herança dos pais.

Tenho certeza que Luz del Fuego foi mais do que pernas roliças e amante de Vargas e que Norma Bengell foi mais do que alguém com problemas com homens.
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